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Centro de SP ganhará telas gigantes e programação cultural em setembro

Projeto Boulevard São João, inspirado na Times Square, promete transformar a esquina da Ipiranga com São João, mas enfrenta questionamentos sobre a Lei Cidade Limpa.

24/04/2026 às 00:54
Por: Redação

A esquina formada pelas avenidas Ipiranga e São João, no coração de São Paulo, se prepara para receber quatro painéis de LED que totalizam 2 mil metros quadrados de telas, com previsão de início de funcionamento entre o final de agosto e o começo de setembro.

 

O projeto, denominado Boulevard São João, foi aprovado há pouco mais de um mês pela Comissão de Proteção à Paisagem Urbana da capital e oficializado nesta quinta-feira (23) pelo prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, pelo governador do estado, Tarcísio de Freitas, e pelo grupo empresarial Fábrica de Bares, que administra diversos estabelecimentos na área central.

 

A iniciativa, já apelidada de "Times Square Paulistana", marca um ponto icônico da cidade, eternizado na canção Sampa, de Caetano Veloso, e onde está localizado o tradicional Bar Brahma, também operado pelo grupo Fábrica de Bares.

 

Uma Nova Experiência Cultural

 

As grandes telas digitais serão instaladas nas fachadas dos edifícios Cine Paris República, Herculano de Almeida, Galeria Sampa e New York. Além disso, haverá uma projeção mapeada no Edifício Independência 2, onde funciona o Bar Brahma.

 

Os telões exibirão conteúdo diariamente, operando das cinco horas da manhã às onze horas da noite. Para os finais de semana, especificamente entre as dezoito horas de sábado e as vinte e três horas de domingo, a proposta é interditar a região para veículos, transformando-a em um espaço para eventos culturais.

 

A programação cultural incluirá a montagem de quatro palcos dedicados a apresentações musicais, bem como áreas para gastronomia e artesanato, oferecendo diversas opções de lazer ao público.

 

Além dos eventos regulares de fim de semana, o projeto prevê a organização de grandes celebrações mensais, alinhadas ao calendário da cidade, como a Virada Cultural em maio, as festividades de aniversário de São Paulo em janeiro, e uma programação especial para o Natal.

 

Revitalização com Capital Privado

 

O acordo estabelecido entre a prefeitura municipal, o governo do estado de São Paulo e o grupo Fábrica de Bares contempla um investimento aproximado de 6 milhões de reais, provenientes exclusivamente de recursos da iniciativa privada.

 

Este montante será direcionado para a qualificação de um importante trecho do centro, que se estende do Largo do Paissandú até o cruzamento das avenidas São João e Ipiranga.

 

As intervenções programadas abrangem a restauração de monumentos históricos, a requalificação das calçadas e a instalação de novo mobiliário urbano. Em contrapartida a esse investimento, o projeto prevê a exibição de marcas dos patrocinadores nos painéis digitais.

 

A distribuição do conteúdo nos telões será majoritariamente cultural, com cerca de 70% do tempo dedicado a artes digitais e eventos. Os 30% restantes serão reservados para conteúdo patrocinado, conforme informado pela Fábrica de Bares. É importante ressaltar que não será permitida a veiculação de material adulto, de apostas (bets) ou de publicidade convencional.

 

Visão de Futuro para a Região Central

 

O governador Tarcísio de Freitas destacou que o Boulevard São João integra um conjunto mais amplo de iniciativas voltadas para a revitalização do centro de São Paulo. Ele afirmou que o governo está empenhado em "resgatar o centro da cidade, devolvendo-a para as pessoas", e que essa recuperação não depende de projetos grandiosos, mas sim do "somatório de vários pequenos projetos que vão trazer as pessoas de volta".

 

Como exemplos de outras ações de revitalização, o governador mencionou a remoção das famílias da Favela do Moinho para a construção de um novo parque no local, e a proposta de realocar a nova sede administrativa do governo de São Paulo da atual localização, o Palácio dos Bandeirantes, no Morumbi, para a região da Luz.

 

O prefeito Ricardo Nunes expressou otimismo quanto ao potencial do projeto para impulsionar o turismo na cidade. Ele relembrou que, no ano passado, São Paulo recebeu 47 milhões de turistas, sendo 2,5 milhões estrangeiros, enfatizando a relevância de criar "locais atrativos na cidade".

 

Nunes também garantiu que o local oferecerá "um ambiente bacana e seguro", com a presença de forças de segurança do estado, incluindo a Polícia Militar e a Polícia Civil, além da Polícia Municipal. O governo estadual confirmou que a segurança na área será reforçada com a adição de mais de 300 policiais.

 

O Debate sobre a Paisagem Urbana

 

A inspiração para o Boulevard São João vem da famosa Times Square de Nova York, localizada no cruzamento da Broadway com a 7ª Avenida, em Manhattan, conhecida mundialmente por seus grandiosos telões de LED, teatros e lojas.

 

No entanto, a proposta paulistana tem gerado controvérsias, principalmente devido à sua relação com a Lei Cidade Limpa, legislação estabelecida há quase duas décadas na capital para combater a poluição visual.

 

A Lei Cidade Limpa impõe rigorosas regras para anúncios e publicidade na cidade, restringindo o tamanho de placas em fachadas comerciais e proibindo a instalação de outdoors.

 

Para viabilizar o Boulevard São João, foi necessário recorrer a um dispositivo da própria Lei Cidade Limpa que permite exceções à proibição de publicidade externa, desde que haja contrapartidas ao município. Esse processo envolveu a realização de audiências públicas para debater o tema e a assinatura de um termo de cooperação entre a gestão municipal e o grupo Fábrica de Bares, autorizando as intervenções.

 

Entre os críticos do projeto está o vereador e urbanista Nabil Bonduki. Em publicações feitas há cerca de um mês em suas redes sociais, ele manifestou preocupação de que a iniciativa pudesse abrir um precedente para projetos semelhantes em outras áreas da cidade. Bonduki alertou para o risco de "ver São Paulo voltar ao cenário anterior à Lei Cidade Limpa" gradualmente.

 

É preciso esclarecer como será feita a fiscalização do conteúdo dos painéis. O que impedirá, por exemplo, a veiculação de propagandas de apostas? Além disso, quais serão as garantias de proteção aos edifícios do entorno e aos moradores expostos à intensa luminosidade?


O vereador também argumentou que, apesar das audiências, o debate público sobre o tema foi insuficiente. Ele defendeu a necessidade de discutir uma atualização da Lei Cidade Limpa, considerando que "quase duas décadas se passaram e algumas exceções podem ser avaliadas, mas isso precisa acontecer com debate público".

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