A celebração do Dia de São Jorge mobilizou milhares de fiéis no estado do Rio de Janeiro desde a madrugada desta quarta-feira (23). A Avenida Presidente Vargas, no centro da capital fluminense, nas imediações do Campo de Santana, tornou-se o principal ponto de encontro para as manifestações religiosas da cidade, que homenageiam o santo padroeiro.
O dia dedicado a São Jorge é considerado feriado estadual desde 2008. Em 2019, o santo foi oficialmente declarado padroeiro do Rio de Janeiro, reconhecendo a forte devoção popular.
Entre os presentes na cerimônia da alvorada, a ex-ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco, expressou profunda emoção ao relembrar sua irmã, Marielle Franco, em um momento de forte conexão pessoal.
Para mim, tem um significado totalmente pessoal e emocional. Eu vim com a Marielle em 2016, no ano em que ela foi eleita [vereadora] e, desde então, venho pagar a promessa que fizemos naquele dia.
Anielle Franco descreveu a experiência como um abraço simbólico à memória da irmã, enfatizando que a data representa um período de "emoção, de família, de devoção e de resistência". Ela também ressaltou a importância do evento na promoção do combate à intolerância religiosa.
A gente tem lutado muito para que a intolerância e o racismo religioso acabem. São Jorge reúne diferentes religiões com fé e devoção e mostra o que o país precisa construir.
Tradicionalmente retratado como um cavaleiro em batalha contra um dragão, São Jorge é uma figura que simboliza proteção, coragem e a superação de adversidades. Sua celebração incluiu a tradicional alvorada, pontualmente às 5h, seguida por uma missa solene conduzida pelo padre Wagner Toledo, realizada em um palco montado em frente à Biblioteca Parque Estadual, onde o público se concentrou.
Cada um aqui tem a sua batalha. Cada coração aqui conhece um peso. Cada vida aqui já enfrentou ou está enfrentando o dragão.
A cantora Azula Cristina Pereira destacou a fusão da dimensão religiosa com a cultural na data, especialmente por sua associação com as religiões de matriz africana. Ela compartilhou sua tradição de participar anualmente do evento.
Venho todo ano [para a celebração de São Jorge]. Nem sempre consigo acordar para a madrugada, então estou feliz de estar aqui hoje. Para mim, que faço parte das religiosidades africanas, a gente cultua São Jorge junto com Ogum. Tudo está vinculado ao trabalho, à luta.
Azula Pereira fez questão de frisar que o sincretismo religioso é um forte elemento de resistência histórica na cultura brasileira. No Brasil, a devoção a São Jorge é marcada por esse sincretismo, especialmente nas religiões afro-brasileiras, como a umbanda e o candomblé.
Nesses contextos, São Jorge é comumente associado a Ogum, o orixá guerreiro ligado ao ferro e às batalhas. Em determinadas regiões, o santo também pode ser relacionado a Oxóssi. Essa prática teve origem no período da escravidão, quando os africanos escravizados começaram a associar seus orixás a santos católicos como forma de preservar suas crenças e tradições culturais.
A pedagoga e produtora cultural Gaby Makena detalhou sua preparação pessoal para a celebração, que começa um dia antes com orações, organização e o uso de vestimentas vermelhas.
Começa no dia anterior, com oração, organização, roupa vermelha. Chegar cedo, acompanhar a missa e sair com esperança. Eu venho todo ano, no mesmo lugar, para alcançar minhas vitórias.
Além do Centro, a devoção a São Jorge também reuniu milhares de fiéis no bairro de Quintino, na zona norte do Rio de Janeiro, onde a alvorada tradicional é outro ponto de grande concentração de devotos. A programação religiosa se estende por todo o dia, com missas realizadas de hora em hora, garantindo um fluxo constante de pessoas que buscam rezar, cumprir promessas e participar ativamente das celebrações.