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Brasil busca rota aérea direta e mais curta para Senegal

Governo brasileiro atua para criar ligação aérea direta com Senegal, visando fortalecer comércio e turismo.

22/04/2026 às 14:14
Por: Redação

O governo brasileiro está empenhado em reduzir o tempo de viagem aérea entre o Brasil e a cidade de Dacar, capital do Senegal, situada na Costa Oeste da África. A meta dessa iniciativa é promover avanços significativos no comércio e no fluxo turístico tanto entre os dois países quanto com nações vizinhas na América do Sul, Caribe e África Ocidental.

 

No momento, não existem voos diretos conectando o Brasil ao Senegal. Em muitas ocasiões, passageiros têm que realizar escalas em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, antes de chegar a Dacar, o que provoca um acréscimo considerável no tempo total do deslocamento.

 

Outras alternativas frequentemente utilizadas incluem a utilização de hubs em aeroportos localizados na Europa ou em cidades africanas que ficam distantes do continente sul-americano, tornando a viagem ainda mais longa.

 

Geograficamente, Natal, capital do Rio Grande do Norte, está separada do Senegal por 2,9 mil quilômetros em linha reta. Para fins de comparação, a distância entre Natal e Lisboa é quase o dobro, enquanto o trajeto até Dubai chega a ser quase quatro vezes maior.

 

A embaixadora do Brasil no Senegal, Daniella Xavier, informou que a intenção de encurtar o tempo de voo entre os dois países foi comunicada durante o Fórum Internacional de Dacar sobre a Paz e Segurança na África, evento realizado recentemente na cidade de Dacar, que conta com cerca de 4 milhões de habitantes.

 

“Temos que continuar a trabalhar nesse sentido, pois não é lógico que tenhamos que ir à Europa para vencer menos de 3 mil km! Imaginem a redução dos tempos de voo e nos custos também em benefício dos demais países da África Ocidental, da América Latina e do Caribe”, disse.


 

Desafios para aumentar conexões aéreas

Segundo a diplomata, existe um ciclo vicioso que precisa ser superado: a ausência de escalas para o comércio e turismo decorre da falta de conexões aéreas, enquanto essas conexões não são criadas justamente pela ausência de demanda em escala suficiente.

 

A embaixadora relatou que esteve em reunião com o ministro das Infraestruturas e dos Transportes do Senegal, Yankhoba Diémé, além da direção da companhia aérea estatal Air Senegal. Ela ressaltou a importância de estimular acordos entre companhias brasileiras – todas de caráter privado – e a Air Senegal, assim como empresas aéreas de outros países, como Marrocos, Etiópia e Turquia, para fomentar o modelo de codeshare, no qual duas empresas comercializam passagens para os voos uma da outra.

 

Vínculos históricos entre Brasil e Senegal

Daniella Xavier destacou que Brasil e Senegal mantêm relações consideradas excelentes. O Senegal conquistou a independência da França no início da década de 1960, e os laços históricos com o Brasil têm raízes profundas, especialmente em função do histórico tráfico transatlântico de pessoas escravizadas.

 

Na Ilha de Gorée, que fica no Senegal, localizava-se um dos principais pontos de embarque de africanos escravizados com destino às Américas.

 

A embaixada brasileira em Dacar foi inaugurada em 1961. Em 1963, o Senegal abriu sua representação diplomática em Brasília, que permanece sendo a única do país africano em toda a América do Sul.

 

Fluxo comercial crescente

Em 2025, o volume comercial entre Brasil e Senegal chegou a 386,1 milhões de dólares, gerando para o Brasil um saldo de 370,8 milhões de dólares conforme dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. Isso indica que as exportações brasileiras superam amplamente as importações provenientes do Senegal.

 

“O Senegal ainda exporta pouco para o Brasil. Poderia, por exemplo, investir na exportação de amendoim e derivados das flores do nenúfar [lírios-d’água], como produtos gourmet, assim como tecidos, produtos artesanais, entre outros”, avalia a embaixadora.


 

Daniella Xavier relatou que o comércio bilateral apresenta tendência de expansão e que há esforços para atrair novos investimentos. Em 2024, uma missão empresarial levou 50 empresários brasileiros ao Senegal.

 

Projeto de genética agrícola

Um exemplo recente de investimento foi anunciado em outubro do ano passado, quando foi aprovada a criação da primeira indústria de genética agrícola no Senegal, com meta de produzir 30 milhões de ovos e 400 mil aves reprodutoras. O aporte inicial previsto é de 20 milhões de dólares.

 

A iniciativa é resultado de uma parceria entre a empresa brasileira West Aves e grupos africanos. A expectativa é de geração de 300 empregos diretos e 1.000 indiretos, além da transferência de tecnologias para o Senegal.

 

“Caso bem sucedido, o projeto poderá permitir a autossuficiência total do país na produção de aves e a redução de 20% de seus custos para o consumidor final”, sustenta.


 

Também existem negociações para que o Brasil transfira ao Senegal técnicas na área agropecuária, além de implementação de programas de merenda escolar e cooperação em defesa.

 

Cooperação política internacional

Para Daniella Xavier, a relação entre Brasil e Senegal se tornou mais dinâmica diante do atual cenário internacional, considerado instável. Ela defende o aumento da coordenação política entre países que compartilham posições semelhantes nos fóruns multilaterais, além da busca por novas alternativas comerciais.

 

Uma das agendas multilaterais compartilhadas é a defesa da reforma de organismos internacionais, especialmente do Conselho de Segurança da ONU. Esse pleito é antigo e defendido por ambos, Brasil e países africanos. Atualmente, apenas cinco países – Rússia, Estados Unidos, China, Reino Unido e França – possuem assento permanente e poder de veto no Conselho de Segurança, e nenhum deles pertence à América do Sul ou à África. Entre as funções do órgão estão a autorização de sanções internacionais e a eventual permissão para intervenções militares.

 

Posicionamento do Senegal sobre segurança e cooperação

Durante o Fórum Internacional de Dacar sobre a Paz e Segurança na África, Marie Gnama Bassene, embaixadora do Senegal no Brasil, afirmou que seu país exerce papel relevante na construção de confiança, fortalecimento da cooperação e prevenção de conflitos por meio do diálogo, com o objetivo de promover e defender a paz tanto regionalmente quanto em escala continental.

 

A representante do Senegal recordou a longa tradição do país em contribuir de forma efetiva para operações de paz da ONU e da Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (Cedeao), que reúne 12 países, e associou essa postura à tradição brasileira.

 

“Ao observar a situação do Brasil e suas relações com seus vizinhos na América do Sul, não posso deixar de perceber muitas semelhanças com o Senegal”, disse à Agência Brasil.


 

Ela ainda afirmou que Brasil e Senegal têm compromissos comuns em defesa do multilateralismo, prática diplomática, manutenção da paz e da segurança, além da busca pela solução pacífica de conflitos por meio do diálogo e consulta.

 

Entre 2026 e 2030, o Senegal vai presidir a Comissão da Cedeao, executando funções de liderança dentro da comunidade. O Senegal também integra a Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul (Zopacas), organização composta por mais de 20 países – a maioria africanos – dedicada a manter o Atlântico Sul livre de disputas e de conflitos armados.

 

Recentemente, o Brasil assumiu a presidência desse grupo em evento realizado no Rio de Janeiro.

 

Segundo a embaixadora senegalesa, a parceria entre Brasil e Senegal é caracterizada por ser sólida, estável e de longa duração, contando quase 65 anos de relações diplomáticas e convergência de posições internacionais.

 

Brasil e a busca por paz no continente africano

O Fórum Internacional de Dacar sobre a Paz e Segurança na África contou com a participação de chefes de Estado, ministros e diplomatas de 38 países, incluindo 18 das 54 nações africanas, além de representantes de outras regiões fora do continente.

 

No encerramento do evento, o ministro da Integração Africana, dos Negócios Estrangeiros e dos Senegaleses no Exterior, Cheikh Niang, foi questionado acerca da possibilidade de o Brasil, país marcado por forte herança africana, contribuir para a promoção de segurança e paz na África.

 

“Acho que o simples fato de participar de uma discussão, apresentar ideias e fazer propostas já é útil”, respondeu.


 

O ministro acrescentou que do ponto de vista senegalês, a participação do Brasil é desejada e considerada valiosa para a qualidade do trabalho realizado no fórum.

 

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