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WWF: Brasil perde R$ 47 bilhões ao escolher petróleo na Foz do Amazonas

Levantamento da WWF-Brasil compara custos e benefícios de combustíveis fósseis e energias limpas na região.

23/04/2026 às 23:33
Por: Redação

Um estudo recente da WWF-Brasil, divulgado nesta quinta-feira (23), revela que o Brasil corre o risco de deixar de gerar 47 bilhões de reais em receitas e benefícios. Essa perda potencial está atrelada à decisão de investir na exploração de petróleo na Foz do Amazonas, em detrimento de alternativas como energias renováveis e biocombustíveis.

 

O montante total das perdas é composto por 22,2 bilhões de reais, estimados como custo do investimento em combustíveis fósseis na Margem Equatorial, somados aos 24,8 bilhões de reais que o país deixaria de lucrar com a ausência de aportes na eletrificação da matriz energética.

 

Análise Custo-Benefício

 

Para avaliar os ganhos e perdas do país ao investir em uma nova fronteira petrolífera, em um cenário de transição energética acelerada e riscos crescentes, o estudo do WWF-Brasil utilizou a Análise Socioeconômica de Custo-Benefício (ACB) como metodologia. Essa é a mesma medição recomendada pelo Tribunal de Contas da União (TCU) para a avaliação de grandes investimentos públicos.

 

Daniel Thá, consultor da WWF-Brasil, descreveu a ACB como um método bastante sistemático e comparativo, fundamentado em critérios objetivos, transparentes e baseados em evidências, com uma perspectiva de longo prazo.

 

“É uma análise que não está focada no lucro do investidor privado ou no imposto que o governo recolhe. Está balizada no retorno para todos os atores da sociedade, incluindo governo, empresa e famílias”, explica.

 

Projeções para a Bacia

 

A pesquisa estabeleceu um cenário de desempenho produtivo para a bacia da Foz do Amazonas ao longo de um período de quarenta anos. Os dez primeiros anos seriam dedicados à fase de exploração, para a identificação e comprovação do petróleo, além do desenvolvimento da nova frente de extração do recurso.

 

Nos trinta anos subsequentes, com o início efetivo da operação, foram projetados investimentos compatíveis com o mercado e o preço do petróleo a longo prazo, com os barris disponíveis para comercialização a partir de 2036. A estimativa de reserva considerada seria de 900 milhões de barris de petróleo, com potencial de exploração de 120 mil barris diários, utilizando vinte poços exploratórios.

 

Do ponto de vista estritamente financeiro, as companhias poderiam gerar lucro com um preço de venda de 39 dólares por barril, já descontados os custos operacionais. Atualmente, o valor do barril de petróleo orbita os 100 dólares.

 

O consultor Daniel Thá ressaltou que a rentabilidade para as petroleiras está intrinsecamente ligada às políticas climáticas globais.

 

“As petroleiras dependem muito de um mundo sem ação climática suficiente para terem lucro”, diz.

 

Custos Sociais da Exploração

 

O cálculo do estudo também incorporou o custo social do modelo adotado na Foz do Amazonas, destacando as emissões de gases de efeito estufa como principal efeito colateral, conforme os critérios da Agência Internacional de Energia.

 

Daniel Thá detalhou que o modelo representativo permitiu estimar emissões de 446 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente, com a maior parte ocorrendo durante a fase de consumo dos combustíveis.

 

O montante das emissões, considerando apenas o custo social do carbono, pode acarretar prejuízos à população que variam entre 21 bilhões e 42 bilhões de reais.

 

Na prática, ao considerar prejuízos como esses, os pesquisadores concluíram que o saldo líquido da nova frente petrolífera na Foz do Amazonas resultaria em uma perda de 22,2 bilhões de reais ao longo de quarenta anos.

 

Daniel Thá acrescentou que a

“A adição dessas externalidades faz com que a somatória dos custos de exploração e produção mais as externalidades não sejam superadas pelo volume de benefícios que é gerado”.

 

Alternativas Energéticas

 

Com base no modelo desenvolvido, a rota do petróleo foi confrontada com outros dois sistemas alternativos, mantendo os mesmos parâmetros de investimento, volume de energia fornecida, quantidade de combustível e risco de mercado ao longo dos mesmos quarenta anos.

 

O estudo adota como premissa que a demanda social é por energia, e não especificamente pelo petróleo em si. Para viabilizar a comparação entre as distintas fontes, a produção média anual de petróleo foi convertida para uma unidade de medida equivalente, totalizando 48,63 TWh por ano. Essa métrica fundamental foi utilizada para determinar se alternativas, como a eletrificação, poderiam oferecer o mesmo serviço energético com custos e impactos reduzidos.

 

Para o cenário de eletrificação, foram consideradas diversas fontes, conforme o último Plano Decenal de Expansão de Energia: 50% de energia eólica em solo, 42% de energia solar fotovoltaica, 4% de biomassa (especificamente bagaço de cana) e 4% de biogás.

 

Daniel Thá afirmou que

“Desvendamos que essa rota de eletrificação, que é imediata e não precisa esperar os dez anos de exploração da rota do petróleo, traria um retorno positivo para sociedade, ou seja mais benefícios que custos e externalidades, de quase R$ 25 bilhões”.

 

O terceiro cenário examinou os biocombustíveis, realizando as seguintes comparações: a gasolina foi comparada ao etanol, o diesel ao biodiesel, o combustível de aviação ao SAF (combustível sustentável de aviação, na sigla em inglês) e o gás de petróleo foi comparado ao biometano.

 

Embora os biocombustíveis apresentem custos mais elevados em comparação direta com o petróleo, os cientistas elucidaram que o prejuízo das externalidades (efeitos colaterais) foi significativamente menor. Consequentemente, a soma dos custos neste cenário resulta em um valor 29,3 bilhões de reais inferior à rota dos combustíveis fósseis.

 

Visão da Petrobras e do Governo

 

A Margem Equatorial, particularmente a bacia da Foz do Amazonas, representa a nova fronteira para a exploração de petróleo e gás no território brasileiro, com um potencial estimado em 30 bilhões de barris de petróleo.

 

Esta área, situada entre os estados do Amapá e Pará, é reconhecida por sua sensibilidade ambiental, com vasta biodiversidade e proximidade a rios importantes e à floresta. Contudo, para a Petrobras, a região é vista como crucial para substituir a produção do pré-sal após 2030.

 

Na avaliação da estatal, a produção de óleo a partir da Margem Equatorial é uma decisão estratégica vital para assegurar que o Brasil não necessite importar petróleo dentro de um horizonte de dez anos.

 

Adicionalmente, o governo brasileiro defende que os lucros gerados pelos combustíveis fósseis podem ser direcionados para financiar a transição energética do país.

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