LogoNotícias de Belém

Senegal amplia presença internacional ao lado do Brasil no Sul Global

Fórum Internacional de Dacar reforça articulação africana por segurança e soberania, com destaque para parcerias estratégicas entre Senegal e Brasil.

21/04/2026 às 21:49
Por: Redação

A cidade de Dacar, capital do Senegal, localizada a aproximadamente 2,9 mil quilômetros do território brasileiro, reuniu chefes de Estado e representantes provenientes de 38 países durante o 10º Fórum Internacional de Dacar sobre Paz e Segurança na África. Realizado ao longo de dois dias e encerrado em 21 de abril de 2026, o evento também recebeu integrantes de dez organismos internacionais, incluindo a Organização das Nações Unidas (ONU) e a União Europeia (UE). O Brasil compareceu por meio da embaixadora Daniella Xavier, destacando o fortalecimento das relações entre os dois países.

 

No discurso de abertura do fórum, o presidente senegalês Bassirou Diomaye Faye definiu Dacar como um centro estratégico que promove o diálogo tanto no plano africano quanto internacional. O presidente afirmou:

 

“Um espaço de reflexão e troca sobre caminhos para desenvolver soluções endógenas [internas] para os desafios de segurança do continente.”

 

O encontro serviu para identificar desafios, debater questões e sugerir alternativas diante dos problemas enfrentados pelos países africanos. Além disso, contribuiu para a consolidação do Senegal enquanto protagonista regional em razão de sua estabilidade política, ressaltando seu status como um dos países africanos reconhecidos por nunca ter sofrido um golpe de Estado e por exibir histórico contínuo de manutenção da paz e governabilidade estável.

 

Segundo Leonardo Santos Simão, chefe do Escritório da ONU para a África Ocidental e Sahel, o Senegal se destaca no contexto continental por essa trajetória e por proporcionar espaços regulares para troca de experiências voltadas ao enfrentamento de desafios como terrorismo, crime organizado e conflitos armados. O diplomata moçambicano observou ainda que a África, atualmente, enfrenta um período tumultuado, devido à atuação de organizações jihadistas, como Al-Qaeda e Estado Islâmico, sobretudo na região do Sahel — área de transição entre o deserto do Saara e as savanas ao sul do continente.

 

Dados do Índice de Terrorismo Global de 2026 revelam que mais da metade das mortes por terrorismo registradas no mundo em 2025 ocorreram na região do Sahel, especialmente nos países Mali, Burkina Faso e Niger. Outros integrantes dessa área incluem Senegal, Gâmbia, Mauritânia, Guiné, Chade, Camarões e Nigéria.

 

O diplomata destacou que o Fórum Internacional de Dacar contou com a participação de representantes de regiões externas à África, reiterando a relevância da troca de ideias para buscar soluções práticas diante dos desafios contemporâneos.

 

Senegal e o movimento do Sul Global

 

Durante o evento, Leonardo Santos Simão sublinhou o papel do Senegal dentro do conjunto internacional conhecido como Sul Global. Esse grupo, frequentemente apoiado pelo Brasil, reúne países em desenvolvimento que compartilham desafios sociais e busca fortalecer o diálogo interno, assim como as relações com nações desenvolvidas. De acordo com Simão, a união dos países do Sul tem se ampliado, promovendo a busca conjunta por soluções para problemas como pobreza e exclusão social. Ele também ressaltou a importância crescente da soberania dos países africanos.

 

“A soberania dos países africanos ‘é um imperativo cada vez maior’.”

 

Ele acrescentou que as relações históricas entre o Norte Global e a África necessitam ser revistas, já que os padrões do passado não são mais aceitos. Estiveram presentes no fórum representantes de governos europeus, entre eles Alemanha, Espanha, Portugal e França, sendo que o Senegal foi colônia francesa até o ano de 1960.

 

Soft power e desafios estratégicos

 

Carlos Lucas Mamboza, professor moçambicano e especialista em Estudos Estratégicos, Segurança e Defesa, avaliou a realização do fórum como um exemplo da aplicação do soft power. Segundo o acadêmico, essa expressão refere-se à capacidade de exercer influência internacional mediante mecanismos de atração e persuasão, sem recorrer à força militar. Ele afirmou que o Senegal busca se apresentar como um Estado estável, capaz de mediar conflitos tanto na região do Sahel quanto em todo o continente.

 

O encontro deste ano teve como tema principal a busca por estabilidade, integração e soberania na África, com foco em soluções sustentáveis. Mamboza, que também leciona sobre África nas Relações Internacionais da Universidade Federal Fluminense (UFF), afirmou que o tema reflete o dilema dos estados africanos em equilibrar estabilidade interna, integração regional e preservação da soberania diante da competição entre grandes potências globais como China, Rússia e Estados Unidos. O professor ressaltou que a agenda do fórum também abordou questões como mudanças climáticas, pandemias, criminalidade transnacional, cibersegurança e inovações tecnológicas, demonstrando o empenho do continente em definir suas prioridades estratégicas de forma autônoma.

 

Parcerias estratégicas com a América do Sul

 

O docente destacou a atual fase diplomática do Senegal, marcada pelo fortalecimento dos laços com a América do Sul e, em especial, com o Brasil. O país africano integra a Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul (Zopacas), aliança formada por mais de 20 nações, predominantemente africanas, cujo objetivo é assegurar que a parte meridional do oceano Atlântico se mantenha livre de conflitos armados e disputas geopolíticas. Recentemente, o Brasil assumiu a liderança do grupo durante encontro realizado no Rio de Janeiro.

 

"Senegal emerge como um elo importante entre a África Ocidental e o espaço estratégico do Atlântico Sul, conectando-se diretamente com os interesses do Brasil".

 

Na visão de Mamboza, essa atuação bilateral configura uma cooperação entre países do Sul. Ele citou como interesse comum entre Brasil e Senegal a defesa por reformas na governança global, especialmente no Conselho de Segurança da ONU. Tanto brasileiros quanto africanos defendem mudanças nesse órgão, que atualmente conta apenas com cinco membros permanentes dotados de poder de veto: Rússia, Estados Unidos, China, Reino Unido e França. Nenhum país da América do Sul ou da África ocupa assento permanente no conselho, cuja função inclui aplicar sanções internacionais e autorizar intervenções militares.

 

Reconhecimento internacional e interesses dos Estados Unidos

 

O papel de liderança buscado pelo Senegal foi reconhecido por Richard Michaels, subsecretário adjunto do Departamento de Estado dos Estados Unidos. Em sua declaração, ele destacou:

 

“A liderança do Senegal em questões de segurança regional demonstra o impacto transformador que os países africanos podem alcançar quando traçam seu próprio caminho rumo ao sucesso.”

 

O diplomata norte-americano acrescentou que os Estados Unidos apoiam uma nova fase de protagonismo africano, com atores nacionais e regionais assumindo a dianteira na resolução dos desafios do continente, sejam econômicos, políticos ou ligados à segurança. Michaels também informou que o governo norte-americano está redefinindo sua relação com os parceiros africanos, priorizando o comércio mutuamente benéfico em substituição à dependência de ajuda externa.

 

Exploração de minerais estratégicos

 

Durante sua participação no fórum, Richard Michaels deixou claro que os Estados Unidos têm interesse em integrar a cadeia de exploração dos chamados minerais críticos, essenciais para tecnologias modernas, defesa e transição energética. Ele afirmou que o continente africano é hoje considerado o epicentro da corrida internacional por esses recursos e explicou:

 

“Estamos trabalhando com parceiros africanos para construir cadeias de suprimentos seguras, transparentes e comercialmente viáveis, que garantam que os países africanos capturem mais valor de seus próprios recursos.”

 

O fórum reafirmou a relevância do Senegal como articulador no cenário africano, ampliando sua projeção global por meio do diálogo, cooperação multirregional e defesa de interesses estratégicos comuns, especialmente em temas como segurança, soberania e governança internacional.

© Copyright 2025 - Notícias de Belém - Todos os direitos reservados