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Funcionários relatam pressão e incerteza após escândalo entre BRB e Master

Operação Compliance Zero abala confiança do BRB, gera tensão entre funcionários e coloca expansão em risco.

16/04/2026 às 20:39
Por: Redação

A deflagração da Operação Compliance Zero pela Polícia Federal em novembro de 2025 trouxe à tona um esquema de fraudes financeiras envolvendo o Banco de Brasília (BRB) e o Banco Master, resultando em uma crise de confiança, considerada o ativo mais valioso da instituição pública do Distrito Federal. O impacto desse cenário tem atingido diretamente o dia a dia de cerca de 5 mil empregados do BRB, incluindo concursados, terceirizados e estagiários.

 

De acordo com Daniel Oliveira, diretor do Sindicato dos Bancários do Distrito Federal e funcionário do BRB desde 2008, tanto os trabalhadores quanto a sociedade estão arcando com as consequências de uma decisão política focada em salvar o Master. O sindicato tem recebido relatos de aumento de estresse no ambiente laboral, especialmente entre os analistas que participaram das negociações com a instituição financeira de Daniel Vorcaro, preso desde o início de março.

 

Esses profissionais, segundo Oliveira, são frequentemente chamados a prestar esclarecimentos à Polícia Federal e a auditores sobre as operações envolvendo créditos do Master, que culminaram com a intenção do BRB de adquirir parte do banco por dois bilhões de reais. Embora o Banco Central tenha rejeitado a transação dois meses antes de determinar a liquidação extrajudicial do Master, o episódio desencadeou investigações e apreensão interna.

 

Após o afastamento judicial de Paulo Henrique Costa (PHC), então presidente do BRB, por suspeita de envolvimento em fraudes, clientes passaram a buscar informações nas agências sobre a estabilidade da instituição e potenciais riscos para seus investimentos. Cabe aos funcionários acalmar os clientes e incentivar que mantenham suas aplicações, enquanto eles próprios sentem-se apreensivos diante das incertezas do momento.

 

“Nossos empregos também estão em jogo. Somos cobrados a dar satisfações sobre fatos que escapam da nossa alçada. Quem atende ao público tem que estar o tempo todo atento ao noticiário para poder transmitir informações que, a nosso ver, são de responsabilidade do banco e do GDF”, ponderou Oliveira.


 

A pressão sobre os trabalhadores resulta em sentimentos que variam entre indignação e apatia, já que, segundo relato do sindicato, havia alertas internos sobre possíveis irregularidades nas negociações com o Master antes do caso vir a público. A entidade afirma ter denunciado ao Banco Central e à Comissão de Valores Mobiliários a primeira operação de compra e venda de carteiras do Master, em novembro de 2024.

 

Preocupação com aposentados e patrimônio

O contexto de instabilidade também afeta cerca de 3 mil aposentados do BRB, cujos planos de saúde e previdência complementar dependem da saúde financeira do banco. A Previdência BRB garante possuir um patrimônio de mais de 4,39 bilhões de reais, totalmente segregado dos recursos de patrocinadores e instituidores, incluindo empresas do conglomerado, e afirma atuar de forma autônoma e independente.

 

Com mais de seis décadas de atuação, o BRB administra mais de 80 bilhões de reais em ativos e conta com mais de 10 milhões de clientes. A instituição argumenta que, com aportes de curto prazo, seria capaz de absorver eventuais prejuízos. No entanto, Daniel Oliveira alerta que a demora na solução da crise e a falta de transparência podem gerar receio entre investidores e ameaçar esse patrimônio, como já refletido pela agência de classificação Moody’s, que rebaixou a nota do BRB devido à ausência de clareza sobre o impacto da aquisição de ativos do Master e à inexistência de um plano de recuperação definido.

 

A Moody’s ressaltou que o banco necessitará de uma injeção significativa de capital, sob risco de dificuldades para cumprir seus compromissos financeiros.

 

Postura institucional e cobranças políticas

O BRB tem restringido suas manifestações públicas a comunicados obrigatórios, como Avisos aos Acionistas, Comunicados ao Mercado e Fatos Relevantes. Dirigentes e colaboradores foram orientados a evitar declarações à imprensa, concentrando-se em campanhas digitais que destacam a solidez e o funcionamento regular do banco.

 

No entanto, na semana anterior, o novo presidente do BRB, Nelson de Souza, não compareceu à Comissão de Constituição e Justiça da Assembleia Legislativa do Distrito Federal para tratar da situação, alegando a necessidade de aguardar a conclusão de auditorias contratadas e a análise do balanço consolidado de 2025 pelos acionistas. Esta ausência irritou deputados distritais, que aprovaram sua convocação obrigatória para depoimento em data a ser fixada.

 

“O não comparecimento, especialmente diante da gravidade dos fatos, não é apenas um desrespeito a esta comissão. É, sobretudo, um desrespeito com o cidadão do DF, que tem o direito de saber o que está acontecendo com o BRB”, declarou o presidente da comissão, Thiago Manzoni. O deputado distrital Fábio Felix acrescentou: “Queremos saber qual é a real situação do BRB. É isso que as pessoas estão perguntando nas ruas”.


 

Na análise de Daniel Oliveira, a repercussão negativa do caso na imprensa reforça discursos favoráveis à privatização do BRB, o que pode levar à venda de ativos para grandes instituições financeiras a preços inferiores ao mercado, com risco de transferência gratuita de contas de governos e pessoas jurídicas atualmente mantidas pelo banco.

 

Projetos estratégicos suspensos e foco regional

Com a crise, projetos considerados estratégicos, como a expansão para outros estados, foram interrompidos, afetando funcionários interessados em transferências e cerca de 400 aprovados em concurso público de 2022, cuja convocação depende agora da resolução do impasse.

 

A intenção de ampliar a atuação do BRB marcou a gestão de PHC, que buscou disputar folhas de pagamento de servidores em cidades como João Pessoa e, com o aval do Governo do Distrito Federal, abriu agências em estados como Bahia, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo, além de estabelecer correspondentes bancários em outras unidades da federação. Também houve investimento em marketing, incluindo patrocínio esportivo e a parceria com o Flamengo para o banco digital Nação BRB Fla, que alcançou quase 4 milhões de clientes. Entretanto, a expansão perdeu força antes mesmo da revelação da intenção de adquirir o Master e foi interrompida após a operação policial.

 

No dia 13, a governadora Celina Leão, que substituiu Ibaneis Rocha em março após sua saída para concorrer ao Senado, informou que a diretoria do BRB avalia o fechamento de agências em outros estados. Ela afirmou que a decisão competirá à diretoria e que, independentemente do resultado, o banco deverá priorizar sua atuação regional e o atendimento à população do Distrito Federal, com ênfase em crédito local.

 

Celina Leão também garantiu que o BRB não irá quebrar e ressaltou que o banco pode cumprir o acordado com o Banco Central. Após reunião com o presidente do BC, Gabriel Galípolo, a governadora declarou que uma solução para a crise será apresentada e implementada em até 30 dias, prazo considerado insuficiente pelo sindicato dos bancários.

 

“Quem é do ramo sabe que as dificuldades vão aumentar dia a dia se não houver logo um aporte [financeiro]; se não houver uma solução eficaz e rápida”, afirmou Oliveira. “A capitalização do BRB é imprescindível. Como fazê-la é uma decisão política”.


 

O sindicalista defende que compete ao Governo do Distrito Federal garantir os meios para que o BRB recupere sua credibilidade e mantenha o controle público, já que a instituição desempenha papel relevante na economia local e na execução de políticas públicas, como os cartões Gás, Creche e Material Escolar, além do sistema de bilhetagem BRB Mobilidade aplicado nos ônibus e metrô do DF.

 

Transparência e consequências para o setor financeiro

O economista e professor da Universidade de Brasília, César Bergo, ressalta que o não cumprimento das obrigações de divulgação do balanço de 2025 e de outros documentos contábeis aprofunda a crise de confiança, sujeitando o BRB a multas diárias superiores a 50 mil reais impostas pelo Banco Central e pela Comissão de Valores Mobiliários.

 

Para Bergo, a falta de transparência em um setor tão sensível gera insegurança entre correntistas e investidores e pode afetar todo o sistema financeiro. Ele cobra ações mais rigorosas do Banco Central e da CVM, destacando que não é justificável a ausência de apresentação do balanço do ano anterior e a demora na realização das assembleias para análise das contas de 2025 e eleição de novos membros dos conselhos, marcada para o dia 30.

 

“O BRB foi alvo de um golpe que lançou o banco em uma crise não só financeira, mas, principalmente, de reputação. E nem os nomes dos dirigentes que estão falando pelo banco foram aprovados pela assembleia? A crise é de confiança e [fontes do GDF] divulgam à imprensa números que não batem, contas que não fecham, de uma maneira que nenhum acionista, economista ou contador entende?”, questionou Bergo.


 

Perspectivas para o futuro do BRB

Bergo aponta quatro alternativas possíveis para superar a crise do BRB. A primeira e mais relevante, segundo ele, seria a capitalização da instituição pelos sócios, sobretudo com recursos públicos do Governo do Distrito Federal. Outra opção seria o BRB buscar empréstimos junto ao Fundo Garantidor de Créditos ou a outros bancos, o que proporcionaria reforço de capital, porém com pagamento de juros elevados. A terceira alternativa seria o governo federal intervir e federalizar o banco, transferindo-o para uma instituição federal como Banco do Brasil ou Caixa, caso semelhante ao Banco do Estado de Santa Catarina em 2008. Por fim, a privatização também é apontada como possibilidade.

 

“A federalização eu não creio que o Palácio do Planalto queira fazer, pois implicaria levar para o âmbito federal um problema que é do GDF. De qualquer forma, seja lá qual for a solução, duas coisas são certas: uma é que salvar o BRB é melhor que deixá-lo quebrar. Outra, é que qualquer que seja a decisão, ela deve ser anunciada rapidamente”, concluiu Bergo.


 

O BRB foi procurado para comentar a situação e fornecer informações adicionais, mas não respondeu até o fechamento desta reportagem. Também não houve retorno da defesa de PHC. A governadora Celina Leão se manifestou, em nota, sobre a prisão preventiva do ex-presidente do BRB, informando que os fatos envolvendo Paulo Henrique Costa estão sob análise do Poder Judiciário e que todas as providências cabíveis foram adotadas em colaboração com as autoridades competentes.

 

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