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Palestinos realizam eleições locais com participação inédita de Gaza

Votação, a primeira na Faixa de Gaza desde 2006, é vista como termômetro político e reforça reivindicações da Autoridade Palestina sobre o território.

26/04/2026 às 04:10
Por: Redação

Moradores palestinos compareceram às urnas neste sábado (25) para participar de eleições locais, um evento que marca a inclusão da Faixa de Gaza pela primeira vez em vinte anos. Este pleito serve como um termômetro do panorama político em um momento em que o governo de Israel busca minar qualquer possibilidade de um futuro Estado palestino.

 

A Autoridade Palestina, que tem sua sede na Cisjordânia, expressou a expectativa de que a realização das eleições na cidade de Deir al-Balah, localizada na Faixa de Gaza, fortaleça sua reivindicação de controle sobre o território. A Autoridade Palestina foi expulsa de Gaza pelo Hamas em 2007.

 

Apesar das dificuldades e da devastação no enclave, alguns habitantes de Gaza demonstraram satisfação com a chance de exercer seu direito ao voto.

 

"Como palestino e filho da Faixa de Gaza, sinto orgulho de que, após esta guerra, o processo democrático esteja retornando", afirmou Mamdouh al-Bhaisi, eleitor de 52 anos, em uma seção eleitoral em Deir al-Balah.


 

Contudo, a taxa de participação eleitoral registrou números baixos, atingindo 22,7% em Deir al-Balah e 53,44% na Cisjordânia, conforme dados oficiais. A contagem dos votos teve início imediatamente, e os resultados preliminares são aguardados para este sábado ou domingo, segundo informações das autoridades eleitorais.

 

Hani Al-Masri, analista político baseado na Cisjordânia, observou que a baixa adesão em Gaza reflete a crise humanitária persistente, que deslocou o foco da população para a sobrevivência em detrimento dos processos políticos. Ele acrescentou que na Cisjordânia, a participação foi influenciada por um boicote promovido por algumas facções políticas.

 

Durante sua votação em uma seção na região de Al-Bireh, próximo a Ramallah, o presidente palestino Mahmoud Abbas declarou que eleições gerais serão conduzidas em toda a Faixa de Gaza assim que as condições permitirem.

 

"Gaza é parte inseparável do Estado da Palestina. Portanto, trabalhamos por todos os meios para garantir que as eleições ocorram em Deir al-Balah, a fim de afirmar a unidade das duas partes do país", enfatizou Abbas.


 

Esforços para governança em Gaza

 

Desde a entrada em vigor do cessar-fogo mediado pelos Estados Unidos entre o Hamas e Israel em outubro, as negociações lideradas pelos EUA têm avançado pouco em direção a um acordo que estabeleça uma supervisão internacional para Gaza.

 

De maneira geral, governos europeus e árabes apoiam o eventual retorno da Autoridade Palestina à gestão de Gaza, em conjunto com a formação de um Estado palestino soberano. Esse Estado abrangeria a Faixa de Gaza, Jerusalém Oriental e a Cisjordânia, onde a Autoridade Palestina exerce um autogoverno limitado sob a ocupação israelense.

 

Diplomatas ocidentais sugeriram que estas eleições locais podem representar um passo inicial para as primeiras eleições nacionais em quase duas décadas, além de impulsionar reformas voltadas para aprimorar a transparência e a responsabilização, processos que, de acordo com a Autoridade Palestina, já estão em curso.

 

"Esperamos que o procedimento realizado hoje seja coroado com eleições legislativas e presidenciais", disse Munif Treish, um dos candidatos na Cisjordânia.

 

A votação deste sábado marca o primeiro pleito de qualquer natureza em Gaza desde 2006 e as primeiras eleições palestinas desde o início do conflito em Gaza, há mais de dois anos, desencadeado por um ataque transfronteiriço do Hamas contra comunidades no sul de Israel. As últimas eleições municipais na Cisjordânia haviam ocorrido quatro anos antes.

 

Desafios econômicos e retenção de fundos

 

A Autoridade Palestina tem enfrentado sérias dificuldades para quitar salários, devido à retenção de receitas tributárias por parte de Israel, que as coleta em nome da Autoridade. Essa situação agrava os receios de um colapso econômico. Israel justifica a retenção desses recursos como uma forma de protesto contra pagamentos de assistência social a prisioneiros e a familiares de indivíduos mortos por suas forças, alegando que tais pagamentos incentivam ataques.

 

O governo israelense também implementou medidas para auxiliar colonos na aquisição de terras na Cisjordânia. O ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, reiterou publicamente: "Continuaremos a matar a ideia de um Estado palestino".

 

Na cidade de Deir al-Balah, que sofreu menos danos em comparação com outras localidades de Gaza desde o ataque de Israel em 2023, faixas com os nomes das listas de candidatos foram afixadas em diversos edifícios.

 

O comitê eleitoral palestino apontou a vasta destruição como um dos principais impedimentos para a realização das eleições no restante da Faixa de Gaza. Mais da metade do território está sob controle israelense, enquanto o restante permanece sob o domínio do Hamas.

 

Posicionamento do Hamas e boicote de facções

 

Algumas facções palestinas optaram por boicotar as eleições em protesto contra a exigência da Autoridade Palestina de que os candidatos endossassem seus acordos, que incluem o reconhecimento do Estado de Israel.

 

O Hamas, que governa Gaza por quase duas décadas, não apresentou formalmente nenhum candidato. No entanto, uma das listas concorrentes em Deir al-Balah foi percebida por moradores e analistas como alinhada ao grupo.

 

Especialistas observam que o desempenho dos candidatos associados ao grupo militante poderá servir como um indicativo de sua popularidade. A maioria dos postulantes, tanto na Cisjordânia quanto em Deir al-Balah, concorre pelo Fatah, principal movimento político por trás da Autoridade Palestina, ou como candidatos independentes.

 

O Hamas, por sua vez, garantiu que respeitará os resultados do pleito. Fontes palestinas informaram à Reuters, antes da votação, que policiais civis ligados ao grupo foram mobilizados para garantir a segurança das seções eleitorais em Gaza.

 

O Comitê Central Eleitoral Palestino divulgou que mais de um milhão de palestinos estão aptos a votar, incluindo 70 mil residentes na Faixa de Gaza.

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